84% dos Family Offices estão preocupados com a geopolítica. E você?

Uma pesquisa global da BlackRock, com 175 Family Offices, trouxe um dado que merece atenção: 84% desses escritórios indicaram que a instabilidade geopolítica é hoje sua principal preocupação.
Essa é a primeira vez, desde 2020, que o sentimento geral entre gestores de patrimônio familiar é negativo. E o motivo é evidente: vivemos uma nova era de volatilidade.
A combinação de guerras comerciais, mudanças fiscais, tensão entre blocos econômicos, nacionalismos e incertezas regulatórias tem exigido um nível de vigilância e sofisticação raramente visto.
O que essa mudança de percepção indica?
Que a preservação e o crescimento do patrimônio deixaram de ser uma questão meramente técnica para se tornar uma questão também geoestratégica.
E é sobre isso que eu vou me aprofundar na Newsletter de hoje.
A nova lógica da proteção patrimonial global
Diante desse cenário, os Family Offices estão fazendo ajustes relevantes em seus portfólios e estruturas.
Os 175 Family Offices pesquisados, que juntos supervisionam mais de US$ 320 bilhões em ativos, mostram um movimento claro em direção a ativos alternativos, que hoje representam 42% das alocações (contra 39% na edição anterior).
O destaque vai para crédito privado e infraestrutura, duas classes que oferecem fluxo de caixa estável, menor correlação com o mercado tradicional e, em muitos casos, proteção contra inflação.
Outra resposta evidente tem sido a diversificação geográfica, tanto na alocação de investimentos quanto na estruturação dos próprios veículos patrimoniais.
Escritórios estão ampliando presença em jurisdições com estabilidade política e incentivos fiscais, como Singapura, Dubai e algumas regiões da Europa.
A proteção clássica, como ouro e hedge funds, também voltou ao radar com mais intensidade. Mas o diferencial não está apenas na escolha dos ativos, e sim na qualidade da gestão do risco.
Family Offices experientes estão operando com visão de cenário, analisando cadeias de risco interligadas e adotando estruturas que oferecem flexibilidade para reagir rapidamente.
O que está nos bastidores: tecnologia, parcerias e inteligência de dados
Outro ponto que chama atenção na pesquisa é a busca por colaboração externa. Muitos escritórios estão ampliando suas redes de especialistas para suprir lacunas em análise de dados, prospecção de negócios, diligência em mercados privados e governança.
É uma mudança cultural: o Family Office deixa de ser apenas um centro de administração para se tornar uma plataforma de decisão estratégica, com acesso qualificado a oportunidades exclusivas, inteligência de risco e capacidade real de alocação global.
A adoção de inteligência artificial, embora ainda tímida internamente, vem crescendo via investimentos indiretos. A maioria dos escritórios prefere alocar capital em empresas que desenvolvem soluções baseadas em IA ou que se beneficiarão da sua adoção em larga escala.
É um movimento que reflete pragmatismo: mais do que experimentar, a meta é capturar valor.
E os empresários brasileiros com patrimônio relevante?
A pergunta que cabe aqui é direta: o seu patrimônio está estruturado para resistir a choques geopolíticos?
Para empresários brasileiros com ativos relevantes (especialmente aqueles com exposição concentrada no Brasil ou sem estratégias de proteção cambial, fiscal e política), o momento exige ação.
Preservar valor no cenário atual não é apenas sobre alocar bem. É sobre estruturar com inteligência, antecipar riscos e atuar globalmente com profundidade local.
Isso passa por revisar estruturas jurídicas, repensar os veículos de investimento, diversificar moedas, jurisdições e classes de ativos: tudo isso com governança e fluidez.
O que é preciso fazer quando a geopolítica entra na sala de reuniões
A geopolítica entrou de vez na sala de reuniões dos Family Offices. E trouxe com ela uma verdade incômoda: a gestão patrimonial precisa ser muito mais estratégica do que já foi.
Para os Family Offices mais preparados, isso representa uma oportunidade: revisar estruturas, sofisticar critérios de alocação, expandir fronteiras jurídicas e financeiras e fortalecer a inteligência de risco.
Para os que ainda operam sob lógicas domésticas ou reativas, é um alerta urgente.
Não se trata de prever o futuro, mas de construir uma arquitetura patrimonial capaz de atravessar cenários complexos com solidez e autonomia.
Além de agir estrategicamente em múltiplos territórios, com múltiplas moedas, múltiplos ativos; também é preciso ter em mente um único propósito: proteger o legado enquanto se cria futuro.
Se você lidera uma família empresária, um grupo econômico ou um patrimônio relevante em processo de transição, é hora de reorganizar sua estratégia.
Sobre mim

Juliano Pinheiro, estrategista independente de Wealth Management
Sou especialista no Mercado Financeiro, Ph.D em Finanças, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais e autor do livro: Mercado de Capitais.
Além disso, possuo mais de três décadas atuando como executivo no Mercado Financeiro, tenho grande expertise na liderança e gestão em Investment Banking, Asset Management e Wealth Management em renomadas instituições financeiras no Brasil e exterior. Atualmente, tenho foco na área de Planejamento e Gestão de Patrimônio da Família, a qual é a base para a segurança financeira, realizações de sonhos e construção de um legado duradouro.